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Keynes e a Agressão à Poupança, Parte 1

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No longo prazo estaremos todos mortos.
— John Maynard Keynes, Um Escrito Acerca de Reforma Monetária

Há homens vistos atualmente como brilhantes economistas os quais menosprezam a poupança e recomendam a dissipação em escala nacional como sendo o caminho da salvação econômica; e quando alguém aponta para as consequências dessas políticas no longo prazo, eles respondem petulantemente, como talvez respondesse o filho pródgto de um pai acautelador: “No longo prazo, estaremos todos mortos” ....
— Henry Hazlitt, Economia Numa Única Lição

Os estadunidenses terão que, no final, livrar-se do mito keynesiano de que a poupança prejudica a economia e o excesso de poupança contribui para a desaceleração econômica. Esses mitos ameaçam a liberdade e a saúde econômicas.

Os defensores keynesianos desse ponto de vista equivocado culpam o excesso de poupança e a insuficiência de consumo pela Grande Depressão. Os avaros, sentados em cima de seus dólares, lançando-se ao que um economista chama de “preferência pela liquidez,” causaram os problemas dos anos 1930. Em vez disso, dizem os keynesianos, os indivíduos, e especialmente o governo, deveriam ter gasto generosamente de tal modo que a economia crescesse.

A preferência pela liquidez e a ênfase no consumo estão entre as crenças básicas de John Maynard Keynes, provavelmente o mais influente economista do século 20. Gerações depois de sua morte, ele continua a exercer influência sobre os estados assistencialistas do Ocidente.

Keynes ficou também famoso por justificar suas políticas de curto prazo de grandes dispêndios ao dizer que “no longo prazo, estaremos todos mortos.” Esse modo de pensar é conscientemente ou não endossado pela mídia majoritária e pela maioria dos líderes governamentais.

Em verdade, formuladores de políticas, trabalhando por décadas sob a égide dessas falácias keynesianas, com sucesso vieram implorando aos estadunidenses para que consumissem, não para que poupassem. A cultura do entretenimento amiúde apresenta os poupadores como pessoas de mente estreita e espírito mesquinho. A política tributária, durante gerações, de modo geral estimulou o consumo e desencorajou a poupança. Exemplos dessa política são o imposto de renda progressivo, impostos sobre os salários, e impostos sobre lucros das empresas, todos prejudicando a formação de capital.

Milhões de estadunidenses médios e suas autoridades eleitas, reconhecendo ou não, têm subscrito noções keynesianas. O resultado tem sido níveis recordes de dívida pública e privada. Isso veio acontecendo à medida que a taxa de poupança pessoal veio declinando drasticamente.

As políticas tributárias e a cultura levaram a mudanças de sinal na atitude dos estadunidenses em relação à poupança. Desde 1994, a taxa de poupança pessoal anual nos Estados Unidos, em termos de percentagem da renda pessoal disponível, sempre se manteve em um só digito baixo, de acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos. (A maior taxa foi em 1994, quando atingiu apenas 4,8 por cento, uma das menores taxas das principais economias mundiais). Entretanto, entre 1947 e 1994, a taxa de poupança pessoal era, em média, de 12,9 por cento.

Na verdade, a taxa pessoal de poupança em 1944, o último ano completo de Segunda Guerra Mundial, atingiu o pico de 26,4 por cento. No entanto, ao longo dos 60 anos seguintes ou em torno disso, a poupança tornou-se algo que os estadunidenses praticaram cada vez menos.

“As taxas de poupança nunca foram menores,” disse à Revista Forbes, em maio de 2005, o economista Ben Stein. Desde essa época a taxa caiu um pouco mais. Em 2008, a taxa declinou para 1,7 por cento. E, em alguns trimestres recentes, ela em realidade ficou em território negativo. “Esta é a maior crise enfrentada pelo país acerca da qual as pessoas podem fazer alguma coisa,” acrescentou Stein.

Contudo, confiança no governo para que este faça toda ou a maior parte da poupança será algo provavelmente equivocado. Mesmo os maiores programas de seguro social geralmente assumem que o aposentado disponha de poupança privada significativa. E aqui a cultura e a política tributária estão novamente prejudicando o país, levando potencialmente a economia e dezenas de milhões de estadunidenses a contínua queda do padrão de vida.

Sucesso político

Mesmo, porém, que alguém aceite a filosofia de que programas como a Previdência Social possam substituir parte significativa da maior parte da poupança para aposentadoria, pode uma pessoa depender desses programas? Pode alguém depender do governo para proteção dos haveres de longo prazo de fundos fiduciários de seguro social? Durante décadas, esses fundos fiduciários foram gastos pelo governo em coisas não autorizadas pelos impostos incidentes sobre salários. E será que o estadunidense médio está disposto a confiar nas promessas de seguro social de órgãos e líderes burocráticos, ambos os quais amiúde motivados por pressões políticas?
Essa é uma perigosa dependência, advertiu um dos grandes amigos da liberdade, Alexis de Tocqueville. Em Democracia nos Estados Unidos, ele disse que tais burocracias manteriam os cidadãos dependentes delas em “perpétua criancice.”

Tocqueville estava pensando da experiência de seu país no governo de Luís XIV. Foi uma época na qual a burocracia francesa tentou administrar todo mínimo aspecto da economia e da vida do cidadão. O resultado? Ao final do reinado do Rei Sol, a França estava falida. Os estadunidenses parecem caminhar para o mesmo problema.
Taxas declinantes de poupança conjugadas com enormes níveis de dívida pública têm funestas consequências para a economia. Escassez de poupança significa não haver capital suficiente para circular. O governo devora cada vez mais capital para pagar déficits e diversos programas sociais e militares.

Assim, firmas novas e aquelas antigas desesperadamente necessitadas de capital têm maior dificuldade de obter caixa. E aquelas firmas ditosas o suficiente para encontrar capital têm de pagar taxa mais alta de juros do que se a poupança estivesse saudável. A economia para de crescer. Mais pessoas perdem o emprego. Tais são os Estados Unidos hoje em dia.

Repetindo, precisamos considerar que essas coisas estão acontecendo numa época na qual a economia dos Estados Unidos está numa queda em parafuso não vista desde os anos 1930, com expectativa de seus problemas continuarem durante meses ou possivelmente anos. E os anos 1930, a época da Grande Depressão, foram também um tempo de taxas de poupança muito baixas.

Em 1932, a taxas de poupança pessoal eram de 0,9 por cento negativo. Em 1938, não eram muito melhores, apenas 2 por cento, de acordo com o Departamento de Comércio. A economia estava no meio de uma brutal recessão, a despeito dos anos de Franklin Roosevelt de repetidos grandes gastos e políticas compensatórias conjugados com políticas de tributação dos ricos visantes a redistribuir a renda.

Dado esse triste histórico econômico de pequena poupança, alta dívida e uma economia manca, é lógico que a maioria das autoridades eleitas, Republicanas e Democráticas, raramente mencionem a importância da poupança. Muito poucos membros do Congresso identificaram-se com com a questão por um motivo: Não é boa politicamente. Cidadãos que assumam a responsabilidade por seus próprios bem-estar e poupança pouco precisam dos políticos, cujo sucesso num estado assistencialista depende do desamparo dos eleitores.

Não é de admirar que os formuladores de políticas e seus leais bajuladores da mídia, em meio ao que poderá desdobrar-se em outra Grande Depressão, preconizem mais das mesmas políticas como forma de restaurar a economia. Um fracassado pacote de estímulo da administração Bush é seguido por um muito maior na administração Obama.
Embora o fracasso de sucessivos planos de estímulo possam ser uma realidade, o poder político que as elites políticas ganham com a implementação mesmo de políticas fracassadas é uma história de sucesso política, do ponto de vista delas. Essa tese é brilhantemente explicada em Crise e Leviatã, de Robert Higgs. A moral da história é sempre a mesma: Fracasso é sucesso no setor público. O indivíduo perde liberdade enquanto o fracasso do estado garante mais poder para o estado.

Se este mais recente pacote de estímulos falhar, os partidários sinceros de Obama — como os partidários realistas de Roosevelt reexaminando seu triste histórico econômico décadas depois dos fatos — dirão que falhou não devido à filosofia que o embasava, e sim por não ter sido grande o suficiente. Mas qual é a filosofia de crescimento à qual os Estados Unidos hoje recorrem em lugar da outrora tradicional abordagem favorável à poupança? Os partidários de mais do mesmo keynesianismo — embora retratado como “mudança” — constantemente citam alguma forma do “paradoxo da parcimônia.”

Ataques à poupança

Esse paradoxo é um conceito muito antigo. Foi famosamente defendido por Keynes nos anos 1920 e 1930. Entretanto, ele na verdade furtou a ideia de inflacionistas tais como o filósofo do século 18 Bernard Mandeville e do jornalista eduardiano(*) J.A. Hobson.

(*) Acerca da era eduardiana ver, em português, http://pt.wikipedia.org/wiki/Era_eduardiana


Nada obstante, essa ideia de “gastar agora, contra a poupança” pareceu muito nova quando Keynes a revivesceu nos anos 1930. Ele citou aprovadoramente a Fisiologia da Indústria de Hobson em seu famoso livro A Teoria Geral do Emprego, dos Juros e do Dinheiro. De acordo com Keynes,
[Poupar,] embora aumente o agregado já existente de capital, simultaneamente reduz a quantidade de serviços de infraestrutura(*) e de mercadorias de compra fácil(**) consumida; qualquer exercício indevido desse hábito necessariamente, portanto, causa acumulação de capital acima daquele necessário para uso, e esse excesso existirá na forma de superprodução geral.

(*) Os dicionários usualmente definem ‘utilities’ fazendo referência a seu caráter de supervisados pelo governo: é o que chamamos de ‘serviços públicos’ – eletricidade, água etc. Também podemos traduzir ‘utilities’ como concessionárias. Entretanto, entendo que o fato do governo controlar esses serviços não é característica essencial, e sim apenas acidental, deles; preferi, pois, traduzir por ‘serviços de infraestrutura’ e talvez coubesse, também, a tradução ‘serviços de utilidade pública’, pois a tradução não se alteraria se tais serviços em algum lugar não estivessem sujeitos a controle governamental.

(**) conveniences, conveniências. Obtive a ideia de ‘mercadorias de compra fácil’ do Babylon, que também oferece a alternativa ‘alimento semipronto/de fácil preparo.’
Keynes argumentou que a poupança prolonga as recessões, enqunto o gasto a reverte e produz aumento de atividde econômica. O aumento de atividade econômica poderá continuar enquanto o governo continuar gastando e produzindo inflação. Keynes desenvolveu essa argumentação em A Teoria Geral, publicado em 1936.

De acordo com Keynes e seus seguidores, o excesso de poupança causou e prolongou a Grande Depressão, pois prejudicou o poder aquisitivo das massas. A desigualdade econômica também representara um problema nos anos 1920, acreditava ele. Esse é um dos motivos pelos quais o keynesiano Obama, em 2009, parece tão determinado a redistribuir a riqueza quanto está decidido a restaurar a prosperidade. Ele aceita a argumentação keynesiana de que a desigualdade econômica, agravada por excesso de poupança, causa depressões ou recessões. Portanto, a profunda recessão dos dias de hoje só pode ser corrigida por ação do governo.

Excesso de poupança também pode impedir a recuperação, advertiu Keynes em A Teoria Geral. “Quanto mais virtuosos somos, mais decididamente parcimoniosos, mais obstinadamente ortodoxos em nossas finanças nacionais e pessoais, mais nossas receitas estarão destinadas a cair.”

Ninguém deveria ficar surpreso com Keynes ter questionado a parcimônia com argumentos econômicos. A definição dela por ele, numa obra dele de uma década antes de A Teoria Geral, asseverava que a poupança era algo “negativo.”

“A poupança,” escreveu ele em seu Tratado Acerca do Dinheiro, “é ato do consumidor individual e consiste no ato negativo de abster-se de gastar o todo de sua renda atual em consumo.”

“Ato negativo”?

A questão da poupança, para Keynes, era também cultural. Antes de ele escrever A Teoria Geral e antes da Grande Depressão, ele argumentava que o excesso de poupança prejudicava a sociedade de incontáveis modos grandes e pequenos.

Por exemplo, em As Consequências Econômicas da Paz, acerba crítica do Tratado de Versalhes depois da Primeira Guerra Mundial, Keynes comparou a construção de ferrovias no século 19 à construção das pirâmides do Egito pelo trabalho escravo.

A paixão por acumular poupança, por tornar a propriedade maior — e, usando a analogia de Keynes, assar um bolo maior sem jamais comê-lo — tornou-se um fetiche no século 19. Prejudicou o padrão de vida de inúmeras formas, argumentou ele.

“O dever de poupar tornou-se a quintessência da virtude e o crescimento do bolo objeto de verdadeira religião,” escreveu ele. “Em torno do não consumo do bolo surgiram todos aqueles instintos do puritanismo que, em outras épocas, haviam isolado as pessoas do mundo levando-as a negligenciar as artes da produção e bem assim o gozo(*).”
(*) Preferi sucumbir à retórica a traduzir com rigor.

Os formuladores de políticas públicas das administrações Roosevelt até a atual administração Obama e por todo o mundo ocidental aceitaram as ideias de Keynes como política econômica e social. Até os Republicanos, que anteriormente se haviam oposto a elas nos anos 1930, vieram a aceitar as ideias de Keynes. Com efeito, um presidente Republicano, Richard Nixon, fez um anúncio famoso de sua conversão a Keynes nos anos 1970.

Isso é irônico, visto ter sido Keynes quem disse que somos amiúde escravos de filósofos e pensadores há muito esquecidos acerca dos quais pouco sabemos. Na verdade, muitos legisladores que acreditam na filosofia de Keynes nunca leram suas obras. Menos ainda podem sequer compreender Keynes devido a seu palavreado túrgido e desorganizado. O economista Jacob Viner disse que A Teoria Geral era “difícil de ler, entender e julgar.” Na verdade, alguns críticos acreditam que Keynes escrevia de modo confuso deliberadamente.

Ainda assim, políticos passaram esse sistema raramente examinado a jornalistas da grande mídia, que usualmente simplesmente o aceitam. Eles amiúde repetem-no sem entender suficientemente que o debate acerca de se Keynes estava certo ou errado ainda está em aberto. No entanto, para os políticos, o debate está encerrado: as ideias de Keynes são corretas para nossa economia, asseveram eles.

Não o são, todavia. Sem poupança suficiente, nosso padrão de vida continuará a declinar. Por que a poupança é fundamental e por que tantas pessoas não conseguem entender isso? Mais a respeito na parte dois.